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quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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Cartões

Cartão de milhas perdido ou roubado: os pontos somem ou ficam com você?

Bloquear o cartão em minutos resolve o dinheiro, mas ninguém explica o que acontece com os pontos que já estavam na conta — e com os que o ladrão gerou antes do bloqueio. Mapeei os dois relógios que decidem isso.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Carteira aberta com cartão de crédito caído no chão perto de uma bolsa
Carteira aberta com cartão de crédito caído no chão perto de uma bolsa

Terça de manhã, avenida Paulista, sinal fechado: um motorista de aplicativo arrancou a bolsa da leitora que me escreveu esse relato. Dentro, a carteira com o Itaú Personnalité que ela vinha usando havia oito meses pra juntar milhas pro Natal na Europa. A primeira ligação foi pro banco, bloqueando o cartão pelo app em menos de seis minutos. A segunda pergunta, feita no chat de suporte vinte minutos depois, foi a que ninguém do outro lado sabia responder direito: “e os pontos que eu já tinha, somem junto com o cartão?”

A versão de 30 segundos

Não, os pontos que já estavam creditados na sua conta não desaparecem com o cartão físico. Eles ficam vinculados à sua conta bancária e ao seu CPF no programa de fidelidade, não ao número gravado no plástico — pedir a segunda via não zera nada. O risco real mora em outro lugar: no que o ladrão comprou entre o roubo e o bloqueio, e em quem — banco ou você — vai arcar com isso. Disso depende se aqueles pontos específicos ficam ou saem da sua conta.

Conceito 1 — pontos já creditados moram na conta, não no cartão

O engano mais comum é achar que o cartão físico é “a carteira” onde as milhas ficam guardadas. Não é. Ele é só a chave de acesso ao gasto; o saldo mora no banco de dados do programa, atrelado à sua conta. Quando você pede a segunda via — seja por perda, roubo ou dano —, o número do cartão muda, a validade muda, o CVV muda, mas a conta por trás continua a mesma. Os pontos que a leitora já tinha acumulado nos oito meses anteriores ao assalto seguiram intactos, e o acúmulo voltou a rodar normal assim que o cartão novo chegou, cinco dias depois.

Isso vale pros pontos que ainda não tinham sido transferidos. Se você já passou parte pro Smiles ou pro TudoAzul, esses seguem outra lógica — a de pontos que não expiram versus os que têm validade, que é assunto de programa de destino, não do cartão que sumiu.

A parte que decide quem paga a fatura (e, por tabela, quem fica com os pontos daquela compra) não é sorte — é tempo. A jurisprudência brasileira, apoiada no Código de Defesa do Consumidor, traça uma linha nítida: compras feitas antes de você comunicar o roubo ou a perda ao banco são, em regra, responsabilidade da instituição financeira, não sua — mesmo que o contrato do cartão tente dizer o contrário (SOS Consumidor). O Tribunal de Justiça do Distrito Federal já decidiu nesse sentido: banco não responde por saques ou compras feitas antes da comunicação, mas responde integralmente pelo que acontece depois dela (Conjur; TJDFT).

O detalhe que vira o jogo contra o cliente é a demora. Em outro caso julgado pelo mesmo tribunal, o consumidor perdeu o direito à indenização porque levou tempo demais pra avisar o furto — a Justiça entendeu que a demora, e não o roubo em si, foi a causa do prejuízo (TJDFT). Ou seja: o cartão sumido não é o problema legal. O problema é quantas horas — ou dias — você deixou passar até apertar “bloquear” no app.

Conceito 3 — o que o ladrão comprou também tem pontos, e eles somem quando a compra é revertida

Aqui está a parte que quase nenhum blog de milhas explica. No relato da leitora, entre o momento do roubo e o bloqueio pelo app, o ladrão conseguiu fazer três compras rápidas — provavelmente aproximação sem senha — somando R$ 2.290. No multiplicador do cartão dela, 2 pontos por real, isso apareceu no extrato como 4.580 pontos Livelo creditados dias depois, junto com o resto da fatura.

Quando ela contestou as três compras (que não eram dela), o banco estornou o valor em cerca de dez dias — dentro do padrão que venho acompanhando desde a Resolução BCB sobre falhas de transação e responsabilidade da bandeira. E, no mesmo ciclo, a Livelo reverteu os 4.580 pontos daquela compra — porque, pelo regulamento do programa, compra cancelada não é considerada compra efetuada, e o débito de pontos acompanha o estorno do dinheiro, mecanismo que já detalhei quando uma leitora contestou uma compra fraudulenta e viu o saldo Livelo ficar negativo. A diferença pro caso dela: como ainda não tinha transferido nada pro Smiles, o estorno só zerou o que nunca deveria ter sido creditado — não deixou dívida.

Onde isso falha

A lógica acima assume duas coisas que nem sempre acontecem. Primeiro, que você percebeu e comunicou rápido — se o cartão some numa sexta à noite e só é notado na segunda de manhã, a defesa legal enfraquece proporcionalmente às horas de silêncio, e a conta pode não ser revertida por completo. Segundo, que os pontos gerados pela fraude ainda estavam na sua conta na hora da contestação. Se você já tivesse transferido pro Smiles com bônus e queimado numa emissão — como aconteceu no caso da contestação que deixou o saldo Livelo negativo —, o programa cobra os pontos de volta mesmo assim, e você fica devendo até regularizar.

Vale lembrar também que perda/roubo é cenário diferente de cancelamento voluntário: pedir segunda via preserva pontos e streak de acúmulo, mas cancelar o cartão de propósito costuma zerar benefícios atrelados à conta, como bônus de aniversário por gasto anual — não confunda os dois procedimentos achando que dão no mesmo resultado. E se a mensagem que te alertou sobre o problema chegou por SMS “avisando” sobre milhas vencendo, desconfie antes de clicar: é um golpe conhecido que mira justamente esse medo, não um aviso legítimo do banco.

Na prática: bloqueie pelo app assim que perceber, guarde o número de protocolo, registre boletim de ocorrência se o valor for relevante, e só depois pense nos pontos — porque, se você for rápido no primeiro passo, o terceiro resolve sozinho.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de milhas, cartões e programas de fidelidade no Brasil — bonificações, redenções e travel hacking sem afiliado. Editor do Milhas & Travel Hacking.

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