segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Desvalorização de pontos: por que o seu saldo vale menos a cada ano (e como travar o prejuízo)

Seu saldo de Livelo, Esfera ou milhas não some — mas perde poder de compra silenciosamente. Explicamos a mecânica da desvalorização de pontos de cartão e mostramos as 4 jogadas que travam o prejuízo em 2026.

Jhonathan Meireles 6 min de leitura
Cartão de crédito sobre gráfico de queda representando perda de valor dos pontos de fidelidade
Cartão de crédito sobre gráfico de queda representando perda de valor dos pontos de fidelidade

Tenho um print salvo desde 2022. Naquele ano, abri SP-Lisboa em executiva pela Smiles por 95 mil milhas + R$ 280 de taxa. Guardei o print porque parecia caro na época. Em maio de 2026, refiz a mesma busca, mesma classe, mesma rota: 165 mil milhas + R$ 412. O voo é o mesmo avião. O que mudou foi quanto cada milha sua compra dele. Ninguém te mandou um e-mail avisando — e é exatamente por isso que a desvalorização é o imposto mais caro que o acumulador de pontos paga sem perceber.

A versão de 30 segundos

Pontos de cartão não “expiram” silenciosamente na maioria dos casos — eles derretem. O número no seu app continua igual, mas o que cada ponto compra cai todo ano. É a mesma lógica da inflação: R$ 100 guardados embaixo do colchão em 2020 não desapareceram, só compram menos hoje. Com pontos é pior, porque não existe IPCA oficial te avisando da perda. A defesa não é parar de acumular — é entender três engrenagens (resgate, transferência e tabela dinâmica) e queimar saldo antes que a próxima rodada de devalue passe a tesoura. Quem entende isso resgata; quem não entende, junta.

Conceito 1 — o número fica, o poder de compra cai

A peça mais traiçoeira da desvalorização é que ela é invisível no extrato. Você abre o app e vê “248.000 pontos Livelo”. O número não mexe. O que muda é o outro lado da equação: quantas milhas o programa parceiro cobra por um voo, ou quanto a loja virtual te dá por ponto.

Pega o meu print de Lisboa. Em 2022, 95 mil milhas + R$ 280 numa passagem que custava na época uns R$ 9.500 em dinheiro davam um CPM (centavos por milha) na casa dos R$ 0,096. Em 2026, com 165 mil milhas + R$ 412 numa passagem que hoje sai por uns R$ 11.200 à vista, o CPM caiu pra cerca de R$ 0,065. Mesma rota, mesma classe: a sua milha perdeu por volta de um terço do poder de compra em quatro anos sem você ter feito nada de errado. Se você não sabe calcular esse número, comece por aqui: montei o passo a passo do CPM real por ponto, porque sem ele você não tem como saber se está sendo desvalorizado.

A consequência prática é cruel. O acumulador que junta saldo “pra usar mais pra frente” está, sem saber, financiando a margem do programa. Cada mês que o ponto fica parado é um mês a mais exposto à próxima tabela.

Conceito 2 — onde a tesoura corta: três pontos de devalue

A desvalorização não vem de um único lugar. Ela ataca em três frentes, e a maioria das pessoas só enxerga a primeira:

A tabela de resgate aérea. É a clássica. O programa simplesmente passa a cobrar mais milhas pela mesma passagem. A Smiles e a Latam Pass migraram parte do estoque para preços dinâmicos, que sobem em alta demanda — feriado, férias, ponte. Não há aviso individual; um dia o mesmo voo custa 20% mais milhas.

A taxa de conversão na loja virtual. Quando você resgata Livelo “em produto” no shopping de pontos, o programa decide quanto vale ali — e historicamente esse é o pior resgate possível, na casa de R$ 0,012 a R$ 0,016 por ponto. Quando o número cai, ninguém anuncia.

O bônus de transferência que encolhe. Aqui mora a parte sutil. Se há três anos a Livelo→Smiles batia 130% com frequência e hoje o teto comum ronda 100%, o seu ponto vale menos na prática, mesmo que a tabela aérea não tenha mexido. A Letícia cobre essa frente toda semana, e ela tem um raciocínio que eu sigo: a partir de quantos % de bônus realmente vale transferir — porque transferir em bônus baixo é aceitar a desvalorização de bandeja.

O ponto que quase ninguém liga: esses três cortes são independentes. Você pode ser desvalorizado pela tabela aérea e pelo bônus menor no mesmo ano, e o efeito se multiplica.

Conceito 3 — a defesa não é deixar de acumular, é girar rápido

Aqui vai a parte que separa quem perde de quem protege. A reação errada à desvalorização é “então não vou mais acumular”. A reação certa é mudar a velocidade do ciclo: acumular com destino já em mente e queimar antes do próximo devalue.

Quatro jogadas concretas que uso:

  1. Saldo parado é dinheiro derretendo. Defina um teto de pontos que você aceita manter sem uso. Acima disso, ou você tem viagem mapeada nos próximos 6-12 meses, ou está doando margem pro banco. Não confunda isso com expiração — pontos podem não expirar e ainda assim te dar prejuízo; já expliquei a diferença no guia de quando os pontos do cartão não expiram.
  2. Transfira só com bônus que pague a desvalorização futura. Se o seu uso é econômica doméstica, um bônus medíocre não compensa travar o saldo. Se é executiva internacional com data flexível, a conta muda. O comparativo de clube de pontos versus transferência bonificada ajuda a decidir onde o seu saldo derrete menos.
  3. Fuja do resgate em loja virtual. É o piso histórico de CPM. Use produto só pra zerar migalha que não dá pra transferir.
  4. Documente seu CPM de referência. Guarde print de uma rota que você usa. Quando o programa anunciar “melhoria no resgate”, você terá um número objetivo pra saber se melhorou pra você ou pra eles.

Minha previsão pro resto de 2026

Vou me expor com uma aposta, porque acho que ela ajuda a calibrar a urgência. Aposto que veremos pelo menos mais uma rodada de ajuste de tabela em um dos três grandes programas aéreos até o fim de 2026, e que ela virá disfarçada de “modernização” ou “preço dinâmico mais justo”. O rationale é simples: o calendário recente mostra cortes frequentes, o real seguiu pressionado e a passagem em dinheiro encareceu — quando o ticket sobe, o resgate fixo em milhas vira prejuízo pro programa, e eles corrigem isso na sua conta, não na deles. Se você tem saldo grande e uma viagem possível, antecipar a emissão hoje é, na minha leitura, a jogada de menor arrependimento.

Onde isso falha

Esse raciocínio tem um limite honesto: girar rápido demais também custa. Se você emite numa data ruim só por medo do devalue, pode pagar taxa alta, classe tarifária pior e CPM baixo — e teria saído melhor esperando uma promoção. A desvalorização é real, mas pânico não é estratégia. A defesa não é queimar tudo amanhã; é não deixar saldo grande dormindo sem destino. Para quem viaja pouco e de forma imprevisível, às vezes o melhor cartão é o que troca pontos por cashback ou desconto na fatura, justamente porque tira o seu dinheiro da exposição ao devalue.

Fontes

J

Escrito por

Jhonathan Meireles

Cobertura editorial independente de milhas, cartões e programas de fidelidade no Brasil — bonificações, redenções e travel hacking sem afiliado. Editor do Milhas & Travel Hacking.

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