segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Open-jaw em milhas: como usar dois aeroportos diferentes para economizar pontos (e ver mais cidades de graça)

Open-jaw é a emissão que deixa você pousar em uma cidade e partir de outra sem pagar milhas pelo trecho terrestre. Explico como funciona, quais programas brasileiros aceitam, e três rotas onde essa regra pode cortar 20%–40% das milhas necessárias.

Marcos Hayama 6 min de leitura
Mapa de rotas aéreas mostrando dois aeroportos de origem e destino diferentes para emissão open-jaw
Mapa de rotas aéreas mostrando dois aeroportos de origem e destino diferentes para emissão open-jaw

Em outubro de 2024 eu fiz GRU–MIA–MAD e voltei de LIS–GRU. No momento da emissão, o sistema do Latam Pass cobrou o exato mesmo número de milhas que teria cobrado num GRU–MAD roundtrip clássico. Lisboa entrou de graça no cálculo. Tecnicamente, eu acrescentei uma semana em Portugal — e a emissão não custou uma única milha a mais.

Isso é open-jaw. E é provavelmente a ferramenta mais subutilizada por quem resgata milhas no Brasil.

O que aconteceu — e por que a conta fechou

Open-jaw funciona assim: numa emissão de ida e volta, o ponto de partida da volta é diferente do ponto de chegada da ida. O trecho que fica sem voo — digamos, de Madri até Lisboa — você cobre por trem, ônibus ou carro alugado, sem precisar de milhas.

A maioria dos programas calcula a tabela de milhas baseada na maior distância voada entre os quatro aeroportos envolvidos (origem da ida, destino da ida, origem da volta, destino da volta). O trecho terrestre fica de fora. É como se ele não existisse para fins de cálculo.

Na prática, isso significa que você pode estruturar uma rota que inclua dois destinos por quase o mesmo preço de um destino.

Existem três variações da emissão open-jaw:

1. Open-jaw de destino — você pousa em A e parte de B na volta. É o tipo mais comum e o que usei no exemplo acima. Exemplo: GRU→MAD (ida) + LIS→GRU (volta).

2. Open-jaw de origem — você parte de A, mas volta para B. Menos comum para brasileiro, mas útil para quem mora em cidade diferente da que vai viajar. Exemplo: GRU→MIA (ida) + MIA→BSB (volta) — útil se você vai morar em Brasília logo depois.

3. Open-jaw duplo — os dois lados são diferentes. Exemplo: GRU→MAD (ida) + LIS→BSB (volta). Mais complexo, nem todos os programas aceitam.

Por que isso importa para você

O ponto não é só “ver mais cidades”. É economizar milhas de forma concreta.

Tome a rota Europa como exemplo. Se você quer visitar Paris e Amsterdã, a alternativa natural seria emitir GRU–CDG e fazer GRU–AMS na volta. Mas CDG–AMS é 430 km por trem Thalys — duas horas e meia, custo de €80–100. No simulador do Latam Pass (consultado em junho/2026), o roundtrip GRU–CDG custa 72.000 milhas em econômica; o roundtrip GRU–AMS custa 72.000 milhas. A emissão open-jaw GRU–CDG de ida + AMS–GRU de volta? Também 72.000 milhas — porque a distância dominante é GRU–CDG ≈ 9.350 km e GRU–AMS ≈ 9.300 km, praticamente empatadas.

Você paga as milhas de uma rota e viaja em duas cidades europeias. O trecho terrestre fica por sua conta, mas €90 de trem são infinitamente mais baratos do que 72.000 milhas extras.

O mesmo raciocínio funciona para América do Norte. Quer Nova York e Miami? Emite GRU–MIA de ida, JFK–GRU de volta. O trem ou ônibus NYC–MIA não existe, mas há voo barato entre as duas por R$ 150–300 no período de baixa temporada. Para esse par específico, o Smiles cobra 50.000–60.000 milhas no roundtrip — independente de qual dos dois aeroportos você usa como ponto de chegada ou partida.

Quais programas brasileiros aceitam open-jaw — e onde cada um trava

Latam Pass: aceita open-jaw de destino sem restrição em emissão de parceira (Star Alliance via tabela de zonas) e em voos próprios Latam. É onde tenho mais experiência positiva. A tabela é por zona geográfica: enquanto Paris e Amsterdã estiverem na mesma zona Europa, o cálculo não muda.

O Latam Pass tem inclusive o stopover gratuito de 24h em hub Latam — uma regra separada do open-jaw, mas que pode ser combinada com ele para adicionar uma terceira cidade sem custo extra.

Smiles: aceita open-jaw em emissões de parceiras (Star Alliance e alguns acordos especiais). A restrição é que o trecho terrestre precisa ser de no máximo 300 km para alguns pares. Rotas mais longas (tipo Paris–Amsterdã já passaria do limite se o trecho aéreo dominante for de outra zona) podem não ser aceitas. Vale testar no simulador antes de tentar.

LifeMiles: é onde open-jaw brilha mais no contexto Star Alliance. O programa da Avianca não cobra YQ (sobretaxa de combustível) em emissões via SIA, ANA e outras do grupo, e aceita open-jaw de destino normalmente. Se você está cogitando resgatar em executiva para a Europa, combinar LifeMiles com open-jaw para um par de cidades europeias é um dos sweet spots mais eficientes disponíveis para brasileiro em 2026.

Azul Fidelidade: mais restrito. A tabela é baseada em distância real voada, e o programa tem histórico de cobrar o trecho terrestre em alguns cenários. Não é o programa que eu escolheria para estruturar um open-jaw complexo.

O custo que ninguém conta — taxa YQ no open-jaw

Aqui está o ponto que vai separar você de 80% dos leitores de grupos de WhatsApp de milhas: open-jaw não elimina taxa de embarque. E em alguns programas e companhias, a taxa é calculada sobre os dois trechos voados, não sobre a rota mais simples.

A taxa YQ varia brutalmente dependendo do programa emissor e da companhia operadora — uma emissão open-jaw via Latam Pass em voos próprios Latam cobra YQ dos dois trechos. A mesma estrutura via LifeMiles em Air Canada ou SIA pode ter YQ zero. O número de milhas pode ser idêntico; a taxa em real, dez vezes diferente.

Minha recomendação: antes de emitir qualquer open-jaw, abra o simulador do programa, coloque a emissão completa e anote a taxa. Depois coloque apenas o roundtrip clássico e compare. Se a taxa dobrou sem motivo claro, você caiu no cenário de YQ acumulada nos dois trechos — e aí é preciso calcular se o ganho em ver a segunda cidade ainda compensa.

O que fazer com isso agora

Três rotas onde open-jaw entrega o melhor custo-benefício para brasileiro em 2026, com base nos simuladores consultados este mês:

GRU → CDG (ida) + AMS → GRU (volta) — Paris + Amsterdã. Trem Thalys ou Eurostar em 2h30. Mesma zona de milhas, custo idêntico ao roundtrip simples.

GRU → MIA (ida) + JFK → GRU (volta) — Miami + Nova York. Voo interno barato ou ônibus Greyhound para quem tem tempo. Vale especialmente com Smiles ou Latam Pass.

GRU → NRT (ida) + KIX → GRU (volta) — Tóquio + Osaka/Kyoto. Shinkansen de 2h30 entre as duas cidades. Em milhas LifeMiles via ANA, essa rota em executiva pode ficar na mesma faixa que um roundtrip simples para Tóquio — e a diferença de experiência é enorme.

Para identificar outros pares que fazem sentido, use o método de achar sweet spots antes de montar a estrutura. O processo é: (1) escolha dois destinos próximos geograficamente; (2) verifique se estão na mesma zona do programa que você vai usar; (3) simule o roundtrip clássico e o open-jaw lado a lado; (4) compare milhas + taxa total antes de confirmar.

Open-jaw não é hack misterioso. É uma regra que está no regulamento de todos os grandes programas — escondida entre parágrafos de condições gerais. Eu só fui usar depois de ter voado Europa quatro vezes a mais do que precisava.


Fontes

  • Latam Pass: Regulamento do Programa Latam Pass, seção “Emissão de passagens com milhas — tipos de bilhete”, latamairlines.com/br (consultado junho/2026)
  • Smiles: Termos e Condições Smiles, seção “Bilhetes”, smiles.com.br (consultado junho/2026)
  • Avianca LifeMiles: Tabela de resgate LifeMiles para parceiras Star Alliance, lifemiles.com (consultado junho/2026)
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Escrito por

Marcos Hayama

Cobertura editorial independente de milhas, cartões e programas de fidelidade no Brasil — bonificações, redenções e travel hacking sem afiliado.

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