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quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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Comprar milhas de "corretor" no Instagram: a transferência que não é bônus de banco — é risco de perder tudo

Perfil vende Smiles ou Latam Pass 40% mais barato que qualquer transferência bonificada. Veja por que isso não é uma promoção escondida, o que aconteceu com quem caiu em 2022, e a conta de risco que ninguém mostra antes de comprar.

Letícia Ribas 6 min de leitura
Mão segurando smartphone com uma oferta suspeita de venda de milhas em rede social
Mão segurando smartphone com uma oferta suspeita de venda de milhas em rede social

Um seguidor me mandou print de um perfil no Instagram vendendo 100 mil milhas Smiles por R$ 1.800 — R$ 0,018 por milha, menos da metade do que qualquer transferência bonificada de banco entrega hoje. A oferta prometia “emissão garantida em até 24h, direto na sua conta”. Ele quase transferiu o Pix. Antes de mandar, mandou o print pra mim perguntando se era a melhor promoção da semana. Não era promoção nenhuma. Era o mesmo esquema que derrubou milhares de contas Smiles e TudoAzul numa única semana de setembro de 2022 — e continua rodando, com nome novo, todo mês.

O que aconteceu (e continua acontecendo)

Em setembro de 2022, TudoAzul e Smiles suspenderam em massa contas de clientes por 90 dias depois de identificar movimentação irregular ligada à venda de pontos e milhas para terceiros. A Azul chegou a notificar por e-mail citando explicitamente “venda de pontos” como motivo; a Smiles usou a formulação mais genérica “conduta em desacordo com o regulamento” — mas o gatilho foi o mesmo (InfoMoney — TudoAzul e Smiles suspendem contas de usuários por venda de milhas).

O regulamento não deixa margem pra interpretação: as milhas Smiles são de uso pessoal e intransferível fora das regras do próprio programa, sendo vedada qualquer forma de venda, compra, doação, permuta ou cessão — e a companhia pode excluir ou suspender quem negociar milhas com terceiro fora dessas regras (Smiles — Regulamento do Programa). A Latam segue a mesma linha: venda de milhas LATAM Pass não é permitida, e o descumprimento é passível de suspensão, exclusão definitiva do programa ou até ação judicial, segundo o próprio departamento jurídico da companhia (Panrotas — Diretor do LATAM Pass explica por que é proibido vender milhas).

O motivo declarado não é só proteger receita da aérea — é segurança de conta. Martin Holdschmidt, diretor do LATAM Pass à época, explicou que vender milhas normalmente exige compartilhar login e senha com o comprador, e é isso que dispara o antifraude: acessos simultâneos em lugares distantes, alteração de telefone de confirmação, emissão pra CPF desconhecido. O sistema não sabe diferenciar “vendi minha conta” de “minha conta foi invadida” — trata os dois como o mesmo risco, e a resposta padrão é bloquear primeiro e perguntar depois.

Pra dificultar ainda mais esse mercado, os programas passaram a limitar quantos CPFs diferentes podem receber emissão da mesma conta: a Smiles trava em 25 CPFs por ano, a TudoAzul em 5 CPFs diferentes com espera de 60 dias pra liberar um novo. Passar desse teto é, sozinho, motivo de revisão de conta — mesmo sem qualquer venda comprovada.

Por que isso importa pra você, mesmo sem nunca ter comprado nada

Se você caça bônus de transferência toda semana como eu, o corretor de Instagram parece uma versão turbinada da mesma promoção — só que sem esperar quarta-feira, sem depender de banco parceiro, com preço fechado na hora. É essa semelhança visual que engana: uma transferência bonificada de banco sai da sua própria conta bancária pro seu próprio CPF no programa aéreo — o dinheiro te dá acesso a mais milhas suas. Comprar de um corretor é outra operação inteira: você paga um estranho pra mover milhas da conta dele (ou de uma conta de terceiro que ele controla) pra dentro da sua, ou pior, pra emitir a passagem direto na conta dele em seu nome.

Refiz a conta de risco que a oferta do Instagram nunca mostra. Se 100 mil milhas custam R$ 1.800 no corretor contra, digamos, R$ 3.200 numa rota legítima de CPM de transferência bonificada bem calculado, o desconto parece de R$ 1.400. Só que essa conta compara o valor errado: o que está em jogo não é só o Pix de R$ 1.800 que você manda pro corretor — é a conta aérea inteira que recebe (ou empresta) essa milha, com todo o saldo que já morava lá antes. Uma conta Smiles com anos de acúmulo pode valer, sozinha, dez ou vinte vezes o desconto que a compra prometia. Comparado com esse tamanho de exposição, uma chance de bloqueio de “só” uma em cada cinco negociações — e o histórico de ondas de suspensão em massa sugere que não é um número exagerado — já é o bastante pra virar a conta a favor do prejuízo. Não é economia; é apostar o cofre inteiro pra ganhar o troco.

Tem ainda um ponto que os corretores nunca mencionam: mesmo quando a emissão sai no seu nome, ela conta como emissão pra “não familiar” dentro do limite anual de CPFs da conta de origem — a mesma regra que rege emitir passagem pra terceiro que não é da família através de canais legítimos. Comprado ou não, seu CPF fica registrado numa conta alheia, sujeita a auditoria a qualquer momento — inclusive depois que você já embarcou.

O que fazer com isso agora

  • Ache o corretor “oficial”: é o próprio programa. Quando um banco vende pontos com desconto pra você transferir depois, a operação é dentro do regulamento — vale calcular se comprar pontos com desconto e transferir com bônus realmente compensa, mas pelo menos o risco de bloqueio não existe.
  • Desconfie de preço “fechado” muito abaixo do CPM de mercado. Se a transferência bonificada da semana já entrega milha a R$ 0,03–0,04, uma oferta de terceiro em metade disso não é sorte — é sinal de que a origem do saldo é suspeita.
  • Nunca compartilhe login, senha ou código de confirmação com quem promete “emitir pra você”. É exatamente esse compartilhamento que o antifraude do programa foi desenhado pra pegar — e é você quem perde a conta, não o vendedor.
  • Se já emitiu ou comprou e a conta foi suspensa, registre reclamação no Consumidor.gov.br ou Procon e guarde todo print da negociação — mas não espere reembolso automático: a jurisprudência sobre posse de milhas segue dividida, e o regulamento que você aceitou ao abrir a conta já prevê a penalidade.
  • Se a milha é sua e você só quer sair dela sem gastar em passagem, o caminho legal é resgatar produto de loja virtual do próprio programa ou considerar se vender milhas dá imposto de renda — nunca via corretor de rede social.

O CPM baixo de um corretor é real no papel. O que ele esconde é a segunda parte da conta: a probabilidade de você não ficar com nada — nem milha, nem dinheiro, nem a conta que levou anos pra acumular. Bônus de banco tem regulamento público, prazo de crédito informado e histórico de reclamação auditável. Corretor de Instagram não tem nada disso, e é exatamente aí que mora o preço real da “promoção”.

Fontes

L

Escrito por

Letícia Ribas

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